O que o ministro da Educação já disse sobre o Enem?


De críticas ao modelo do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) a reclamações sobre os faltosos da última edição, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, mesmo com perfil mais discreto do que seus antecessores, não deixou de falar nos últimos meses da prova —considerada a principal porta de entrada ao ensino superior.

Em sua mais recente declaração, na Comissão de Educação no Senado, por exemplo, Ribeiro comentou sobre os faltosos do Enem 2020. Segundo ele, o MEC (Ministério da Educação) jogou “R$ 300 milhões na lata do lixo” por causa daqueles que não compareceram nos dias da prova.

Para a coordenadora-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Andressa Pellanda, Ribeiro “age em uma perspectiva da educação como serviço e não como direito; e do Estado como prestador de favor e não cumpridor de responsabilidade constitucional”.

Confira abaixo as principais declarações do ministro em relação ao Enem e o acesso ao ensino superior.

“Universidade deveria ser para poucos”

Durante uma entrevista para TV Brasil, Ribeiro disse que a universidade “deveria ser para poucos” e defendeu o crescimento dos institutos federais.

“Então acho que o futuro são os institutos federais, como é na Alemanha. Na Alemanha são poucos os que fazem universidade, universidade na verdade deveria ser para poucos nesse sentido de ser útil à sociedade”, disse o ministro.

A fala repercutiu negativamente em todo o país e levou Ribeiro, inclusive, a ser convocado pelo Senado para prestar explicações.

Para Andressa, a declaração do ministro demonstra uma “falta de preocupação” com aquilo que deveria ser a principal responsabilidade do MEC: “garantia universal à educação ao longo de toda a vida para toda a população, sem discriminações”.

O ensino técnico deve ser de qualidade e reforçado, mas não é um cabo de guerra com o ensino superior, que precisa também de investimentos e de garantia de oferta de vagas com qualidade. Não deveria ser um em detrimento do outro.”
Andressa Pellanda, coordenadora-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

“Sonhar ser doutor é bom, mas Brasil não dá oportunidade”

Quando foi prestar esclarecimentos ao Senado, Ribeiro explicou que não quis dizer que o “filho do porteiro não pode ter acesso à universidade”, mas que o Brasil deveria avançar nos cursos técnicos e profissionalizantes.

“O sonho de ser doutor é muito bom, mas, num país que não tem oportunidade, o curso técnico é a grande ferramenta”, argumentou.

A declaração do ministro, segundo Andressa, demonstra “falta de perspectiva de um projeto de Estado que garanta o desenvolvimento e os direitos humanos de forma concomitante”.

Isenção foi negada para alunos “que deram de ombro”

Assunto diretamente ligado ao Enem, foi muito comentado pelo ministro o veto de isenção da taxa de R$ 85 para os participantes que faltaram na edição do ano passado.

O Enem 2020 registrou o maior índice de abstenção e grande parte dos alunos deixou de fazer a prova por medo de se contaminar com o coronavírus —a prova aconteceu em janeiro, durante um dos maiores picos da doença.

Em uma entrevista à rádio Jovem Pan, Ribeiro falou que negou a isenção para aqueles que “deram de ombro”. “Não podemos apadrinhar as pessoas e simplesmente dizer: ‘Vocês podem tudo, podem quebrar todas as regras’. Cada um responde por si. As oportunidades foram dadas”, disse o ministro, na época.

A isenção só foi oferecida para quem faltou por medo da pandemia após uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal). Depois da determinação, Ribeiro continuou argumentando que o MEC jogou “na lata do lixo” R$ 300 milhões.

“Concordo com a preocupação de custos, mas isso precisa ser feito com uma política. Não dá para penalizar quem já está penalizado com a pandemia”, disse o ex-presidente do Inep Chico Soares.

Acesso prévio às questões do Enem

Em junho, Ribeiro disse durante entrevista à CNN Brasil que gostaria de ter acesso antecipado ao Enem para evitar aquilo que chama de “questões de cunho ideológico”. A declaração foi de encontro a uma atitude tomada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), recém-eleito na época.

“Nós sabemos que, muitas vezes, havia perguntas objetivas ou até mesmo com cunho ideológico. Nós não queremos isso. Queremos provas técnicas. […] As questões mais subjetivas nós não vamos tirá-las de tudo”, disse Ribeiro durante entrevista.

Para justificar, o ministro usou o mesmo exemplo citado por Bolsonaro em 2018: “Na última [prova], houve uma discussão sobre o salário do Neymar e da Marta, mostrando que mulheres ganham menos. Imagine se na prova a gente pudesse colocar o salário da Gisele Bündchen, modelo, e do Paulo Zulu. Então é uma questão desnecessária para avaliar o conhecimento de alguém na minha opinião.”

Andressa avalia essas declarações como uma tentativa de “aparelhamento ideológico”. “Defender que o Enem não tenha perguntas de avaliação crítica por pressupor a necessidade de reflexão política e social sobre o mundo é mais uma forma de expressão de negacionismo por parte do ministro”, explica.

Ribeiro depois voltou atrás e disse que os técnicos do Inep ficariam responsáveis por garantir um Enem com “caráter técnico”.

Erro em questão ao criticar Enem

No mesmo dia em que voltou atrás de ter acesso prévio ao exame, Ribeiro errou uma pergunta da edição de 2020 para justificar sua visão da prova.

A questão traz o seguinte texto: “Eu tenho empresas e sou digno do visto para ir a Nova York. O dinheiro que chove em Nova York é para pessoas com poder de compra. Pessoas que tenham um visto do consulado americano. O dinheiro que chove em Nova York também é para os nova-iorquinos. São milhares de dólares. […] Estou indo para Nova York, onde está chovendo dinheiro. Sou um grande administrador. Sim, está chovendo dinheiro em Nova York. Deu no rádio. Vejo que há pedestres invadindo a via onde trafega o meu carro vermelho, importado da Alemanha. Vejo que há carros nacionais trafegando pela via onde trafega o meu carro vermelho, importado da Alemanha. Ao chegar em Nova York, tomarei providências”.

Após a leitura, o exame propunha: “As repetições e as frases curtas constituem procedimentos linguísticos importantes para a compreensão da temática do texto, pois”:

A) expressam a futilidade do discurso de poder e de distinção do narrador;

B) disfarçam a falta de densidade das angústias existenciais narradas;

C) ironizam a valorização da cultura norte-americana pelos brasileiros;

D) explicitam a ganância financeira do capitalismo contemporâneo;

E) criticam os estereótipos sociais das visões de mundo elitistas.

A resposta correta, segundo gabarito do Enem, é a alternativa A, mas, em sua fala, o ministro disse ser a D. “O gabarito é a letra D […] Isso pra mim é ideológico, não há necessidade de ter pergunta dessa natureza, de visão de mundo. Não é compreensão de texto”, apontou Ribeiro ao comentar a alternativa errada.

As ações do MEC e do chefe da pasta, segundo Andressa, impactam na “violação do direito à educação”.

O UOL pediu um posicionamento do MEC em relação às declarações, mas não obteve resposta. O espaço fica aberto para atualização se a pasta responder.



Fonte

Com professores super atenciosos, o cursinho me abriu uma porta para o futuro e agora estou na melhor universidade do Brasil Rebeca Nilsen, aprovada na USP

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